Vadiar
- Oi Charlotte ! Pode falar dois minutos ?
- Dois minutos? Tá louco! 30 segundos talvez, 2 minutos IMPOSSÍVEL!
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Estou em Paris.
A minha vida é uma vida normal de Parisiense. Em cada minuto do meu dia eu tenho um compromisso. Quem quiser me ver tem que marcar horário. Tenho aulas das 9:00 às 18:00, e trabalho de garçonete das 19:00 à meia-noite. Não posso perder tempo. Ninguém pode. Vadiar é uma atividade inconcebível aqui. A palavra nem existe em francês. Se um dia (horror!) uma aula for cancelada, deixando um buracão na sua agenda, você acha um jeito de ir ao cinema, ou de fazer alguma coisa : consultar os seus e-mails, falar com a sua mãe que lhe deixou um recado três dias atrás, e pediu para você ligar assim que puder.
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Sou uma Parisiense típica. Eu ando sempre com pressa. Na escada rolante do metrô, tem duas filas : as pessoas que não querem andar a pé têm que ficar à direita, para deixar as outras passar. O coitado do turista que não entende a regra e fica imóvel a esquerda, bloqueando o “tráfego” sente passar a raiva dos Parisienses atrasados que não podem agüentar a idéia de perder 5 segundos esperando atrás dele.
Qualquer coisa, eu sou atrasada. De manhã, eu chego à faculdade de bicicleta às 9:10, suando e com o rosto todo vermelho. As 13:00, tenho uma hora para almoçar... mais 10 minutos para tomar um café e estar de novo atrasada de tarde. O professor também nunca termina de falar antes das 18:10 e me faz chegar à meia hora ao trabalho onde eu tinha que jantar às 18:00. Quando volto pra casa, o outro dia já começou, mas me parece que eu não acordei ainda.
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Ontem, pela primeira vez desde que eu estou em Paris, fervi água e preparei um chimarrão. Fui sentar, tomei um, dois, três... e o tempo parou. Liguei o notebook, escrevi uns e-mails. Peguei o violão e toquei. Exercícios, músicas do repertório e uma música nova também. Cozinhei um rangue com verdura do mercado. Na hora que fiquei cansada, fui dormir.
7:45. O despertador toca. A sua melodia no meu ouvido está me dizendo : “Tu tá em Paris guria!”