DaFoL
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O Brasil tá comigo!
Sou imperdoável. Tanto tempo sem mandar notícias! Porém, não esqueci vocês. Ao contrário, me parece que não posso deixar de pensar no Brasil. Em qualquer lugar que eu vou, tem que ter alguma coisa que me lembra Porto Alegre. Agora mesmo, no café onde eu estou sentada, está passando Berimbau do Baden. Raro ouvir essa música num lugar público por aqui. Em geral, o conhecimento dos Franceses sobre a música brasileira se limita a Garota de Ipanema...

Falando nisso, procurei no mês passado os lugares “brasileiros” de Paris. Eu não imaginava achar tantos. Só que eles não têm nada dos bares onde eu andava em Porto Alegre. A cerveja é de marca belga ou alemã, o vinho é argentino, a comida mexicana, e a “caipirinha” é preparada com rum. Mas tem escrito “Brasil” em tudo o que é lado e tem fotos de Copacabana e do Pelé nas paredes. Até o preço das bebidas é parecido com o da passagem para São Paulo.

Resumindo : ainda estou procurando um bar bem brasileiro (sem aspas!) em Paris.

* * * * *
Mas na verdade, não precisa ir neste tipo de lugares para matar a saudade. De vez em quando no restaurante (bem francês!) onde eu trabalho, chegam uns turistas brasileiros e eu aproveito para praticar um pouco o português. Conheci um cara muito legal que, depois de 10 anos em Paris, não sabe bem como definir-se:
“Eu sou carioca. Não, na verdade, sou mais parisiense agora. Aliás, sou Brasileiro e um pouco Francês também, entendeu?”
Um irmão meu!

Num outro dia, ainda no restaurante, passei perto de um colega que estava tentando comunicar com um grupo de doze pessoas.
- Français? English? Español?... Italiano?
- Português!
Ele olhou para mim, desesperado: “Ah non, putain! Je parle pas un mot de portugais...”
- Mas aaaaahhhhhhhh ! Deixa eu fazer! Eu falo português!
Os clientes eram paulistas! Eu fiquei um tempão batendo papo com eles, os meus chefes me vigando com aquela cara de “Charlotte, te mexe! É quase uma hora! Temos que fechar e eles ainda não comeram!” Mas o cliente é rei, neh? ... e jà que ele quer conversar um pouco, não posso negar!

* * * * *
Também tive várias oportunidades de falar do Brasil com pessoas francesas. Aliás, depois de ter ouvido milhares de bobagens sobre a França quando eu estava lá, tenho agora que agüentar todos os estereótipos absurdos dos franceses sobre o Brasil...
- Você morou um ano no Brasil? Aposto que você adora jogar capoeira!
- Não jogo nada, não.
- Entendi, você é mais de dançar samba, neh?
- Sou péssima.
- Não aprendeu nada mesmo? Mas porque será que você foi pro Brasil então???

Tem também muitos Franceses que já foram no Brasil e adoraram :
- Eu morei lá um tempinho. Fiquei três meses entre o Rio e Ilha Grande. Praia e sol todo dia. Maravilha!
- Olha, eu morei lá um ano e fiquei no total três dias na praia : um no Rio, um em Salvador e um no meio da Amazônia. Foram quase os únicos dias lindos que tive durante as minhas férias, pois viajei para as partes mais chuvosas do continente. O resto do tempo, fiquei em Porto Alegre, onde passei frio no inverno, e quase morri de calor no verão. Lá não tem o mar para tomar banho e o rio é mais sujo ainda do que o rio Seine.
Apesar de todo isso, tenho certeza de ter gostado mais do que tu!

* * * * *
A cultura “brasileira” (com aspas) é onipresente por aqui, mas parece que ninguém jamais ouviu falar daquela parte do país que fica no sul de São Paulo. Só conheço um Gaúcho que mora em Paris, o Manoel (e apesar de ser gremista ele é um cara muito legal!)
Mas na semana retrasada, recuperei o tempo perdido longe de Porto Alegre, com a visita de dois grandes violonistas e queridos amigos. Acho que dei mais risadas num fim de semana com eles do que durante os dois meses que acabo de passar na França. Enfim, eles já foram embora... estou aguardando outras visitas. A minha casa está aberta!

Afinal, as melhores mostras que eu tenho do Brasil são as minhas próprias lembranças e as coisas que eu trouxe de lá. Nas paredes do meu quarto tem um mapa de Porto Alegre com os pontinhos indicando as casas de vocês, e os lugares de que eu gostei; tem também um painel enorme cheio de desenhos das crianças do morro, que elas me deram de presente na minha despedida. São as primeiras coisas que vejo de manhã quando me acordo, e as últimas que enxergo antes de dormir. E sempre tenho bons sonhos.